Teocracias e geopolítica
Não é desejável que a religião adentre a pauta política, mas a decisão cabe ao povo e não a "libertadores" de fora
Já falei em ditaduras espirituais e torno ao tema. O contato com a divindade — o cósmico, deus ou deuses, como quer que se queira referir — é personalíssimo e não admite mediadores. As “vozes autorizadas” são detentoras de um poder do qual não querem abrir mão, desde as castas sacerdotais da antiguidade aos milionários cobradores de dízimo dos tempos modernos. Para tais senhores o pensamento crítico é um perigo e, como tal, anatematizado.
Tais “vozes autorizadas” lançam seus tentáculos por sobre a vida civil e, com cada vez maior frequência, junto às instituições e ao poder público. No Brasil isso se verifica facilmente com a bancada evangélica pautando a produção legislativa conforme sua visão teológica. Há países em que o fenômeno é ainda mais profundo e o controle político em si está nas mãos do corpo religioso — já é de teocracia que estamos falando.
É claro que penso no Irã ao escrever estas linhas. É um tema altamente complexo e como tal precisa ser abordado com responsabilidade intelectual. Primeiramente acho oportuno dizer que a doutrina política do regime, o Wilāyat al-Faqīh, o governo dos sábios (isto é, justamente o das “vozes autorizadas”), não é consenso no xiismo. A maior voz do xiismo iraquiano, Ali al-Sistani, o rejeita, por exemplo. O Islã não é uniforme e tampouco o são seus segmentos e linhas, como se vê neste link sobre as divergências xiitas.
É fundamental notar também que a maioria absoluta das informações que recebemos do Irã são oriundas da mídia a soldo de Washington. Não há jornalismo “neutro” e interesses geopolíticos criam monstros conforme a conveniência. De modo que é preciso rejeitar a caricatura ocidental para que possamos compreender o país persa adequadamente, na medida do possível, é claro — há distâncias geográficas, culturais e históricas enormes entre nós. É um erro dizer que lá mulheres “são oprimidas”, por exemplo. Há uma interpretação conservadora, uma aplicação de certa ortodoxia islâmica, que ressalta papeis de gênero, o que causa espécie em nossa mentalidade ocidental. Mas daí à opressão vai uma larga distância, sobretudo se essa ortodoxia outorga benefícios em contrapartida.
Pode-se discutir se é desejável viver sob essa sharia (digo “essa” pela pluralidade de interpretações que pairam sobre supostos consensos). Há penas severas para homossexualidade e é ilícito beber. Novamente, isso está em descompasso com nossa mentalidade ocidental. Mas — precisamos ser humildes e entender que nossa mentalidade não é a única possível. Rejeito “relativismos culturais” e acredito que há valores absolutos que transcendem locais e contextos, mas os povos diversos pelo planeta têm suas próprias idiossincrasias.
Portanto o ponto mais importante é este: é o povo iraniano que dirá se é desejável viver sob a Revolução Islâmica de 1979 ou não. É uma decisão que não cabe nem a Trump nem a Netanyahu, os grandes artífices das agitações desestabilizadoras que ocorrem no país persa nos últimos dias, ávidos para restabelecer a antiga monarquia do xá e fazer de novo do Irã uma colônia subordinada aos interesses imperialistas.


