De ditaduras "espirituais"
A aventura religiosa não pode estar subordinada às regras das vozes "autorizadas"
Penso em tempos antigos, Egito e Babilônia, sacerdotes como castas privilegiadas. Os únicos portadores da vontade divina. Só eles sabem; não o populacho, ah, esse não. E assim opressões se perpetuam. É tudo uma grande relação de poder onde de um lado temos uma pequena elite e de outro a massa ignara, um status quo justificado pelos próprios textos sagrados interpretados, claro, por tais únicos portadores da vontade divina.
Refiro-me ao que escrevi no post anterior. Os leitores — caso os haja por aí — poderão perceber que os assuntos sobre os quais tenho escrito se concatenam. Não há solução de continuidade, e sim uma coisa puxa a outra. A pauta neste blog, portanto, é não ter pauta; tudo corre solto e apenas sigo o fluxo. Saúdo no ponto Tydain tad Awen (Tydain “pai da Musa”), dos galeses, e Euterpe dos gregos, com suas liras afinadas e vozes melífluas inspirando nosso oficio blogueiro.
No post anterior, como ia dizendo, falei dos “burocratas do espírito”. Aqueles que se consideram detentores de saberes interditos aos pobres mortais. É o sacerdote babilônico redivivo. Tudo com muito mistério e segredo para não atiçar olhares profanos. É um vício que não escolhe credo específico. Está rigorosamente em toda parte, das religiões dos grupos dominantes, oficiais, às pequenas manifestações espirituais dos historicamente oprimidos.
A minha abordagem do sagrado é diametralmente oposta, sobretudo diante da minha opção caoísta. O religare — “reler” ou “religar”, conforme a tese etimológica adotada, mas ambas servem — é um processo personalíssimo que não pode ser ditado por nenhuma autoridade religiosa. Os filtros são criações humanas interessadas na manutenção das velhas relações de poder. Quando menos, é vaidade nua e crua. Como ser um sacerdote muito importante se o conhecimento cuja exclusividade você reivindica está acessível a todos? E eis todo hermetismo tirando de circulação algo que deveria estar à luz do dia.
Um ponto importante. Não menosprezo o papel do mestre. E por mestre não me refiro unicamente aos detentores de título formal, pois a maestria pode adotar inúmeras formas — uma benzedeira analfabeta também pode ser mestra. Respeito a maestria, mas não quando vem travestida de arbítrio e arrogância. Mestre é quem de repente aprende, como diz Guimarães Rosa.
Ainda um ponto importante, sobre saberes herméticos. É verdade que há coisas que não podem estar acessíveis ao público em geral. Tutoriais de bombas caseiras são um bom exemplo… E não se joga pérolas aos porcos, concordo. Mas por princípio o conhecimento deve circular livremente e, no ponto que estamos tratando, a dialética do sagrado — penso aqui em Eliade — é para todos, para frustração das “autoridades” e das vozes “autorizadas”.


