Hipocrisia e esperança
As classes dominantes mostram sem pudor quem são. Mas a luta segue.
A força bruta tem ditado o ritmo do mundo. Todos ficamos chocados com a truculência do trumpismo, seja sequestrando o presidente da Venezuela seja bombardeando o Irã, mas talvez tenha sido um pouco ingênuo de nossa parte — Trump apenas rasgou o véu de hipocrisia e mostrou como as coisas realmente são. A lei do mais forte. Convenções sociais, tratados, acordos, tudo que marca minimamente o ascenso civilizatório é pisado pela bota dos senhores da guerra. Sempre foi assim? É que perderam o pudor de fingir.
A hipocrisia é mesmo uma marca das classes dominantes. O “Mundo Livre” ocidental é conversa pra boi dormir. Democracia, liberdade — isso interessa aos fariseus apenas quando conveniente. Zuckerberg e Musk, para ficarmos no exemplo dos multimilionários donos dos algoritmos que controlam nossas vidas, propugnam pela livre manifestação do pensamento na medida em que algum benefício seja extraído. Benefício para eles, bem entendido. Não sendo o caso, eis a censura velha de guerra aplicadas em suas redes contra aqueles que contestam o status quo. Todos sabem que a a Meta censura posts pró-Palestina. Sim, sãos esses mesmos senhores que encherão a boca para denunciar o “autoritarismo” de Putin e Maduro. Sepulcros caiados da pior espécie, mas, novamente, isso não deveria nos surpreender — os donos do poder manipulam a tudo conforme seus próprios interesses.
A constatação desses fatos traz dois sentimentos distintos, aparentemente antagônicos; como já expresso por Gramsci sobre o pessimismo da razão e o otimismo da vontade. O pessimismo tem relação com o fato de que, nada obstante o teatro da hipocrisia das classes dominantes estar mais do que exposto, parece não haver reação adequada por parte das populações (sobretudo das classes trabalhadoras) do mundo. Claro, há fissuras no discurso hegemônico: por exemplo, a retórica mentirosa do sionismo, que falsamente tenta se identificar com o povo judeu e com o judaísmo para assim impor sem resistência seu projeto genocida de dominação colonial no Oriente Médio, tem sido cada vez mais confrontada e mesmo a grande imprensa venal é obrigada a abrir espaço para vozes dissonantes. Em outro exemplo, Trump já é visto por grande setores de seu próprio movimento MAGA como um traidor — afinal, prometeu America First e não o Israel First que tem levado os EUA a novas guerras, coisa que também prometera não fazer. Mas apesar disso a lavagem cerebral imposta de cima é poderosa e segue inabalável. Isso é puro materialismo histórico, nos ensinaram Marx e Engels: as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante. Quem detém o poder material também deterá o poder espiritual. Multimilionários algoritmos seguem ditando aquilo que querem que acreditemos.
Todavia também há esperança, na segunda parte da assertiva. Ela assenta justamente nessa impressão, verificável, de que o discurso hegemônico não é indestrutível. Sem menosprezar o inimigo, Mao Tsé-Tung disse que o imperialismo é um “tigre de papel” — na aparência é terrível, mas… O simples fato de utilizarmos as mesmas redes sociais dos bilionários donos do status quo para denunciar esse mesmo status quo, apesar de termos pequeno alcance, é uma prova de que a luta segue sendo travada, de que a luta está em aberto. Claro que há aqui um tanto do Capitalist Realism de Mark Fisher, o capitalismo tão seguro de sua vitória que não apenas tolera como estimula dissidências (lucrando com isso, óbvio). Que seja; que cave sua própria cova. Isso aliás é muito coerente, a burguesia gera as armas da sua própria destruição, está lá no “Manifesto Comunista”.


