Refletindo sobre a escrita
A necessidade atávica de registrar sentimentos, qualquer que seja o meio
“Navegar é preciso, viver não é preciso”, diz Fernando Pessoa, como Bernardo Soares, emulando os argonautas. Já falei isso sobre o ato de blogar — nós que temos o gosto pela escrita não conseguimos nos desvencilhar da prática. Há algo como uma compulsão que nos leva inevitavelmente ao teclado. Não quero dizer que nossa escrita seja boa; não é o mérito qualitativo que importa. E sim essa necessidade imperiosa de reduzir a escrito sentires, impressões, emoções.
Palavras o vento leva! Tentemos lhes dar o caráter duradouro do formato escrito. Os antiquíssimos antepassados sabiam disso quando representavam suas cenas cotidianas nas cavernas. Sympathetic magic, magia simpática, magia imitativa: o gesto retratado se reproduziria. A caça, detalhadamente desenhada como exitosa, também exitosa seria na vida real. O registro gráfico dá certeza; o dado está dado — sem trocadilho — ao universo, grafado em letras de fogo.
Depois a escrita propriamente, cuneiforme, papírica, pergaminhos, e já Gutenberg e o livro eletrônico, os terabytes de informação que preenchem pastas e pastas com arquivos em PDF que jamais serão lidos, a Biblioteca de Alexandria toda dentro do pen drive. A de outrora pôde ser queimada, mas hoje, ah, hoje temos hospedagem na nuvem. O sistema só não pode sair do ar, senão…
Vemos portanto que a escrita une, sem soluções de continuidade, a pré-história à pós-modernidade. A tradição oral é bela, mas apesar de parecer singela e humilde é curiosamente elitista. Poucos eleitos terão o privilégio de ouvir a transmissão: o regaço da avó, o círculo à volta do fogo etc. não são acessíveis para todos. O trabalho escrito, ao contrário, é por sua essência publicizável; tornar público, de todos. Para o bem e para o mal, porque ao lado do sublime há o sofrível e mesmo o criminoso — mas gostos são gostos e censuras são inúteis. O “livro” é apenas um meio de transmissão. É inocente. As ideias, os pensamentos, seguirão circulando qualquer que seja o meio.
É claro que escrever pressupõe a outra ponta, o leitor. Hoje o formato vídeo é dominante e muito mais popular que o formato escrito. Sinal dos tempos e processo inexorável; não é possível remar contra a maré. Há modismos de internet, mas a cada vez maior popularização do vídeo em relação aos blogs escritos parece irreversível. O meio muda, como eu disse acima, mas a transmissão segue — e o registro. O vídeo também cumpre esse desiderato. Mas sigo preferindo o formato escrito, ainda que isso possa soar romântico ou quixotesco.


