De fatos e opiniões
Fatos comportam interpretações diversas, mas não sobre sua existência em si; caso contrário deixa de ser fato e se torna opinião
O excesso de informações é um dos traços da contemporaneidade. E nem sempre informação de qualidade ou, mesmo, verídica — são tempos de fake news e pós-verdade. A opinião se sobrepõe ao fato. Como eu acredito naquilo, aquilo precisa ser real, ainda que a realidade, bem, às favas com a realidade.
Há alguns anos escrevi um post em um de meus blogs antigos, que chamei de Dois equívocos ao se analisar os fatos. Na época participava muito de fóruns de discussão na rede, naqueles áureos tempos do Orkut, isso em início dos anos 2010. Eu ficava surpreso, nos grupos de esquerda, ao ver informações históricas puerilmente desprezadas apenas por serem oriundas de “fontes burguesas”.
Os “dois equívocos” que eu apontava, então, seriam o seguinte: primeiro, todo conhecimento nasce de uma ambiência concreta, material. É isso que nos ensina o materialismo dialético marxiano. Não há conhecimento “neutro”, no sentido de etéreo, abstrato, caído “puro” dos céus. Será sempre condicionado pelo mundo de onde ele brota. Portanto, rejeitar um conhecimento por ter origem “burguesa” é ser ingênuo; afinal, o conhecimento será burguês por ser gestado na sociedade burguesa, assim como o conhecimento no Antigo Regime reproduzia a ótica da época e assim por diante.
Ou seja: sempre haverá condicionantes históricas e locais. O que precisamos fazer, se somos seres pensantes e críticos, é filtrar o que é ideológico daquilo que é real (e se não for real, ainda que relativo conforme nosso alcance, não é de conhecimento que estamos falando). E não simplesmente rejeitar algo por ser “burguês”. Agir assim é de uma estreiteza epistemológica grotesca.
Esse acima seria o que chamei de erro objetivo. Porque, segundo, há o erro subjetivo: que é o de desconsiderar que não apenas o conhecimento é condicionado pelas relações materiais e de base, como dito acima, mas que também os homens que produzem esse conhecimento o são. Origem de classe, com seus preconceitos inerentes, fatores psicológicos etc. costumam matizar nossa forma de enxergar a realidade (e de trabalhar sobre ela).
De modo que pleitear uma ciência “neutra” ou “pura” é tolo e ingênuo. Novamente, precisamos é de filtros e de senso crítico para separar joio do trigo. Rejeitar uma informação factual pela origem de classe de sua fonte tem muito de pós-verdade, ainda que seja um cacoete antigo nas militâncias. Ou é fato ou não é. Inclinações ideológicas estão em tudo e influenciam a forma de interpretar o fato, mas ele próprio, se é fato, não é suscetível de dúvida (a menos, é claro, que novos elementos factuais refutem o fato em si). Doa a quem doer a Terra é redonda.


